Ali, naquele lugar, enquanto os cachorros latiam em diferentes idiomas e gargalhavam chorinhos de cavaquinho e os homens falavam em diferentes latidos e uivavam melodias sinfônicas, os gatos, gatinhos de todas as cores, do olhar a pelagem, formosos e macios que só, não falavam nem latiam, mas carregavam em suas costas vilarejos inteiros de arquitetura mirabolante povoados por seres que não sabia-se ao certo o que eram.

kris-kuksi-Plauge_Parade

Não eram pulgas, nem carrapatos, muito menos qualquer tipo de outro bichinho ou inseto ou parasita, animalzinho chato e irritadiço; talvez seriam seres intergaláticos, que, com sua pequeneza, conseguiram viajar de forma confortável grandes distancias de quilômetros sem se preocupar em ocupar espaço no sideral, ou seres do interior da terra, que, só devido a sua forma microscópica, conseguiam se encaixar entre as fissuras e rachaduras que a profundidade de nossa colônia proporciona e ali viver de forma bucólica nas grandes pressões.

Não se sabe, não se sabe, mas enfim, podiam e erguiam edificações. As edificações que construiam em cima dos gatinhos que ora pareciam de arquitetura oriental, médio-asiática, com abóbadas e linhas de pagodes, de barro, de madeira ou outro material natural e tão bem ficavam sustentadas em cima dos felinos que mal se sentia o seu caminhar e eles, ambos, se adaptavam muito bem uns aos outros; ora parecia construções flanêur-ocidentais, todas paramentadas em vibrantes e exóticas parafernálias em e com ebulições e floreamentos neobarrocos, que traziam curiosidade aos que viam aquela montoeira caótica de civilização, com toda sua força energética gerada pelos uníssonos ronronares tranquilos, toda uma diversão de desenho animado, com sobes e desces e viras e mexes, despertando mais curiosidade ainda de olhar um por um aqueles animaizinhos, dois em um, um em um, um em dois, tão bonitos e admiráveis com um povoado inteiro sobre suas costas, carregando-os e nem ai, que mesmo quando deitavam ou ficavam em alguma posição desconfortável ou saltavam entre os muros e ruelas os gatinhos, psi psi psi gatinho vem cá, nem se importando, caminhando vibradamente suave sem incomodo algum, não importunavam nem atazanavam ninguém e nenhum.

Era tudo muito fluido, era assim que, no meio de Waldir Azevedo e Igor Stravinsky, viviam e transitavam naquele lugar, ali.

(Imagem: Kris Kuksi)

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