Foi à estante, pegou tal obra e sentou-se. Abriu o livro. Primeiro, os capítulos. Se fossem númerados ou entitulados, cada qual em sua disposição. De instante, contou todos os pingos no i. Do título, nome do autor, bibliografia, notas do rodapé, até as últimas linhas, finais consequências. Anotou o número num papelzinho e continuou. Enumerou os acentos, fossem agudos, circunflexos, os tis. As virgulas, os pontos e seus filhotes, os pontos e virgulas. Todos os sinais gráficos, de travessões e tremas a cerquilhas, arrobas. Contou as páginas, já marcadas, porém de seu modo e jeito – se houvera 12, 21, 42, 62, 202, contabilizava todos os números, sendo pares ou ímpares. Neste caso, marcou 50 números dois. As citações, as notas de rodapé, as falas, até mesmo os murmúrios, os pensamentos. Cada qual em sua posição. Dissecou a obra, que já havia lido e relera outras 2 vezes. Após nova imersão, como já fizera com outras, contou um por um os gráficos de seu conteúdo e depois os classificou, os colocou categoria por categoria, como numa coleção. Letra por letra, símbolo por símbolo, algarismo por algarismo, personagem por personagem. Dependendo do livro, ia até mais fundo. Apontava os cenários que compunham o roteiro, quantas ruas, dias e noites, mortes, pessoas públicas, obras de arte, crianças, citações, tudo, tudo. Tinha uma fórmula, desenvolvida sabe-se como, que, quase com exatidão, determinava quantos metros um personagem andara durante a obra. Sabia quantas letras V apareciam em Eu receberia as piores noticias de seus lindos lábios, quantos números 5 apareciam em O Homem que Calculava, quantos assobios dava Rubião em Quincas Borba ou quantas blasfêmias cometera Zé Pequeno em Cidade de Deus. Sim, blasfêmias! De sua biblioteca extensa, partilhava uma coleção baseada em textos. E de cada texto, outra coleção. E dessa outra, outras e mais outras. Outras e outras mais.

O que seria ele? Um bibliotecário fanático por livros? Um dicionarista colecionador de palavras? Achava mais que isso, tamanha era sua paixão, sua dedicação pelos versículos, pelos dados, pelos detalhes, pelas marcas, pelos sinais em cada folha, em cada página que passava e repassava. Um filatelista da imaginação. Os livros. Os livros. Estes e aqueles apenas assumiam isto e aquilo como profissão. Ele não. Não profissão – era motorista de ônibus, nem hobby – soltava pipa. Os vocábulos, A por A e os gráficos, asteriscos por asteriscos, todos e todos, sem distinção, eram de total devoção. Para ele, o mergulho da leitura não bastava. Precisava ter fôlego, sendo capaz mesmo de se afogar, de padecer nas 10.000 léguas submarinas do vasto oceano da literatura.

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