Marcos acha que muitas daquelas coisas engraçadas que aparecem nos diálogos das pessoas nas redes sociais não passam de algo combinado entre elas anteriormente para que apareçam em um blog qualquer e façam um ligeiro sucesso. Depois que viu um post de um rapaz que convenceu uma garota a sair três horas da manhã para transar (ou qualquer outra ligada ao fato), sendo que ela tinha namorado e trabalhava na manhã seguinte, percebeu que alguma coisa tinha ali: durante toda a postagem o rapaz falava nome de outras pessoas, citava lugares como lanchonetes e bares, como que para “incorporar” elas na historia, para que fossem “citadas”, comentadas numa futura lembrança da história. Fora que a enfase do rapaz para conseguir uma transa naquelas horas nem fora tão convincente assim, parecendo tudo um teatrinho virtual para enganar os bobos nas cascas dos ovos. Fico cismado que naquele mato tinha coelho, que um diálogo daqueles não poderia ser tão natural, como uma conversa tola entre amigos – e isso que ele e seus amigos eram bastante tolos para ter uma conversa dessas e nunca haviam. Tinha convicção que alguns eram encenados ou combinados anteriormente como uma morte fake na televisão, só para aparecer e chocar de uma maneira irreal os pobres telespectadores.

Antes de dormir e colocar seu celular para despertar cedo na manhã seguinte, Pedro pensa que não precisaria colocar o celular para despertar cedo na manhã seguinte pois isso condicionaria – sendo que já estava – seu cérebro a acordar de uma maneira brusca, não natural, já que lera ou alguém lhe falara que o despertador do celular não faz vc despertar, mas sim interrompe sua linha de sono e te acorda de qualquer maneira, pouco ligando se isso faz bem ou mau ou tanto faz, inclusive aos fins de semana que quando desejava dormir mais, porém era acordado por um cérebro condicionado à acordar naquela hora durante 5 dias por semana. No entanto, Pedro não fazia isso pois tinha medo de seu cérebro falhar e assim não acordar cedo na manhã seguinte e perder a hora e a aula e levar falta, repetindo mais um semestre pelas suas não presenças na sala de aula de uma matéria que só acontece semestre sim e semestre não, o que adiaria seu plano de se formar o mais rápido possível e acabar de vez, pelo menos por enquanto, com essa história de ter que acordar cedo despertado por um bip-bip de um celular. Pedro odiaria isso, assim como o fato de ser condicionado por uma merda de despertador de celular, sendo que em seu espelho havia um adesivo translúcido onde podia ler-se: Me recuso a colaborar com organismos que me reprimem. E por isso sempre atirava o celular longe quando este despertava; logo teria que comprar um novo, o terceiro este ano.

Bruna acredita que escovar os dentes mais de uma vez por dia faz mal para suas gengivas e dentes sensíveis. Quando morou no exterior, percebeu que as pessoas não ligavam muito para higiene bucal, já que suas colegas de quarto as vezes ficavam um ou dois dias sem escovar os dentes, assim como tomar banho, lavar os cabelos. Achava que o corpo não precisava de tanta limpeza, que assim seria mais natural de se viver, prezava essa condição. Acordava e tomava um copo d’água e pronto, estava tudo resolvido. Um chicletinho também. Polia os dentes e disfarçava o mau hálito também. Apenas quando bebia ou fumava é que escovava os dentes antes de dormir, ou então tivesse comido algo forte, gorduroso, durante o dia. Senão deixava os dentes como estavam, assim mesmo. Pensava consigo: ontem passei fio-dental e enxaguante, pra quê ficar botando mais química na minha boca? Hoje vou ficar de boa, deixa meus dentes descansarem um pouco, tadinhos. É sabido que o líder comunista Mao Tse Tung não escovava seus dentes; os chineses em geral fazem o mesmo. Sendo de direita, Bruna mais ou menos se identificava com isso e se punia mentalmente, chamando os comunistas de porcos por terem um líder que não escovava os dentes. Malditos porcos comunistas, proferia por sua suja boca.

Murilo gostava de fumar maconha, contudo percebera que de um tempo para cá parara de sonhar, o que deixava ele um tanto chateado. Comentara isso com outros amigos maconheiros que confirmaram o mesmo e ainda fizeram graça, o que pra ele não tinha a menor graça. Sonhar era bom demais, e maconha também, contudo uma paixão anulava a outra. Murilo fumava pelo menos um baseado por dia, queria fumar menos e sonhar mais, mas maconha era tão bom e relaxante, assim como sonhar, que não sabia o que fazer, já que maconha o fazia sonhar também, mas de olhos abertos, o que não tem tanta graça como sonhar de olhos fechados. As vezes, ficava dois dias e sonhava as coisas mais esdrúxulas possíveis e com isso sentia-se satisfeito. Lembrava de seus sonhos e os colocava no papel para não esquecer e poder rir de si mesmo e seu inconsciente maluco. As vezes também, fumava mais de um baseado por dia, o que fazia sua noite ser tão vazia e sem nada como a própria escuridão noturna, onde de nada se vê e de coisa nenhuma se lembra. Nisso, ficava e ficava pensando o motivo de isso ocorrer, por qual razão uma coisa tão relaxante não permitia que outra coisa tão mais relaxante pudesse ocorrer. Seria inveja da maconha aos sonhos já que a viagem que ela proporcionava era tão relativa ou melhor que a dos sonhos? Ou seria que na verdade ele sonhava, mas como a maconha fazia as pessoas esquecerem de tudo, seus sonhos eram os mais atingidos com isso, ainda mais do que os sonhos daqueles que não fumam? Será que um dia a ciência estudara isso ou era apenas bobagem, perguntava-se fumando, vendo Discovery Channel.

Priscila percebera que muitos escritores usavam a técnica de criar perfis de personagens com suas qualidades ou seus defeitos, suas epifanias e suas neuras, e percebera também que muitos de seus textos eram assim, personagens fictícios em situações diversas tal como se fosse um dicionário, uma enciclopédia, um bestiário ficcional de personagens e suas ações de vida cotidiana que pudessem ser a vida real de qualquer um. Não se sentia confortável com isso, assim quando pensava como a internet destruíra o classicismo das coisas e a humanidade entrara numa era de arte e comunicação drástica, onde tudo era visto e tido com certa desconfiança. Odiava com as revistas que tanto gostava perderam a qualidade, pois todo seu conteúdo pudia ser visto e encontrado na rede, as tornando, atualmente uma cópia da pura cópia. Odiava como o cinema tornara-se simplesmente feito numa maldita tela verde e todas aqueles roubos cinematográficos de antes, sem câmeras de vigilância e sem aparatos de mil usos, não podiam existir hoje pelos GPS, WI-FI e rastreadores da vida. Odiava como a música agora era simplesmente CTRL+alguma coisa, SHIFT+duas teclas e que com uma misera placa de som você construía uma obra em 15 minutos, podendo ser campeã de vendas sem a mínima criatividade inventiva, fora essa coisa das “músicas vazarem”. Por fim, odiava como a literatura, sua tão amada literatura, era um antro de experimentalismo sem direção, onde livros de desenhos vendiam mais que clássicos e os poetas mais queria fazer rimas legais do que passar algum sentimento, por mais mentiroso que fosse, e como aquilo era visto com naturalidade pelos outros. Lhe afligia a maneira como as pessoas perderam aquele sentimento de ansiedade pela espera de alguma noticia, que só chegaria 3 dias depois. Seria ela uma boba nostálgica ou uma severa realista? Um professor lhe disse que Sartre já dizia que o presente não existe, que tudo é passado, o que naquele tempo até fazia algum sentido, alguma diferença, já que o tempo tinha um gosto diferente, um passar diferente, como um café da tarde com croissants ou um bom dia com torradas e chá. Hoje, que gosto o tempo tem?, perguntava. O que lhe vinha era o gosto de uma mordida num Big Mac torto e mal montado, ou então o sabor oco de um pastel de vento, saboreado vendo um viral no Snapchat, no Vine. Que merda que merda que merda. Fumar mais um baseado e dormir sem sonhar, c’est la vie, não dá pra ser tudo perfeito, não é mesmo. Nisso pensou no que disse algum poeta ou escritor famoso sobre a falta de sonhos e a incapacidade de se viver sem eles. Será que só voltando a sonhar seria uma grande escritora? Vai dar uma preguiça fudida depois para escovar os dentes, debaixo das cobertas nesse quentinho. O que eu comi hoje? Ah, quer saber, que se foda. 35 anos e ainda tenho dentes, tô no lucro. Keith Richards tá na quinta dentadura, mas… bem… Que eu vou dizer? Tem gente que aos 20 nem cabelo mais tem, não é? Se bem que, se cabelo fosse bom…. Bom, foda-se. Foda-se. Amanhã eu passo Listerine antes de sair.

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