Dava com a língua nos dentes e sentia as pontas e imperfeições e os lambia avidamente. Era o cão que apreciava a manga, passando o músculo gulosamente pela gengiva e suas contrações, todos os vincos e vulcos que davam forma àquele pedaço de carne nervoso. Por trás, pela frente, as tateava, concavidades convexas e côncavas, oblongas, por onde ficavam, sobravam restos, que terminavam ali seus restos, vestígios do que um dia foi nutrição. Morte e vida.

A profundidade que cada um relembrava-o era de um iceberg negativo, vislumbrando apenas seu interior, em prospecção ao formato, que recordava aos picos das geleiras submersas. Cadeias montanhosas alvas, alpes. Eram como formões, como limas, pequenas, com suas ranhuras e com marteladas, encravadas. Profundos, entocados, encrustados, com tal asperidade que aparava e ralhava as palavras que eram proferidas pela boca, assim como refinava e reduzia o que por si entrava.

Já os molares, verdadeiros totens, paquidermes, imponentes, vultosos, trituradores. Eram como brocas, estraçalhadoras, pulverizadoras. Pegadas de elefantes brancos de diamante. Dilacerantes. Amassavam, prensavam, força, aperto, pressão. Um panteão colossal, vistoso, vigoroso, os meteoros que afofavam a terra. Arrebatadores, tinham para si que a paixão pela destruição é uma paixão criativa.

Cães de orelhas pontiagudas, os caninos eram ouriçados na medida como agulhas, salientes como facas, presas pontudas, lanças, flechas ligeiras prestes a penetrarem, rasgarem, cesurarem ao que morde, ao que finca, agarra e aprimora como um tecido, como uma pele, um retalho, de ponta a ponta, arregaça, esgaça, rompe e sente o talho na fibra, o brotar de espaços, um lanho e puxa e puxa e puxa. Abre um corte preciso, um naco, cirúrgico, canidae. Soldados da guarda real, nobres augustos, eretos e pragmáticos.

Os frontais assemelhavam-se a machados, querendo decepar o instante do mínimo movimento sentido. Imediato. Pelo interno ou o externo, era cada vez maior o sentimento de pertencimento de cada uma daquelas estruturas, daquelas colunas alvas, com todo aquele conjunto interno. Maxilar, mandibular. Bucomaxilofacial. Máxima máquina.

Dois lados, dois corredores, duas fileiras, paredes, muros onde a neve se esgueira e deixa seu acumular junto de terra preta suja, edifícios, monumentos, estátuas brancas em sua imposição, em sua melancolia. Aplausos. Rangeres sombrios. Uivos. Lamentos. Suspiros. Ruídos. Prantos.

A borda das gengivas nos dentes, sentia a relação limítrofe, era como o encontro de duas matérias brutas, compostas organicamente, e que juntas, fortes e imponentes, formavam toda uma dentição abrupta. Muralhas naturais de basalto e granito, paredões de jade e marfim, com a força e o fluir, decorrer natural do tempo e toda sua ação formidável, irreparável, irretocável.

São operários. Fortes, não tente desvincilhá-los, desarticulá-los, arrancá-los da sua vontade de trabalhar e viver que a dor será a mais miserável e impiedosa. Não tente movê-los. Eles devem ficar juntos, de braços dados, firmes, ali, parados, prontos. A língua dava-se aos dentes, chicoteando-os. Vai! Voluptuosa, languida, veias e saliva e asco. Nadava como o molusco, o tentáculo polidor que se esgueira entre as frestas obscuras.

E, com toda essa potência opulenta, em um momento único daquela mina negra, buraco enfadado na imensidão bucólica e opaca, vazia e maçante, reverberava um som. Vinha de lá, do raso, profundo âmago, evocando raios e trovões e as negras tempestades. Tudo sacudia, o sino badalava. Vinham os ventos, vinham as folhas, vinha o rebuliço, o rugido, o estrido. O grito. Colidia como as águas ao costão descomunal, vindo como o destoar das ondas a despertarem na beira deste mar cósmico, céu da boca. E disso, do eclodir da bocarra, que abria-se para a luz, todos os dentes mostravam-se, podendo ver até onde alcançavam, esbarrando num fim repentino.

E após desabar, o urro regredia, recolhia-se e tampava-se no vácuo. Espaço, estrelas, beleza. Silêncio.

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