Não se sabe o motivo, porém, naquela quente tarde, Daniel suspeitou que a água que o entregador entregara naquele momento em sua casa não era uma água limpa, pura, cristalina. “Da fonte”, como dizia no rotulo.

Suspeitou, não se sabe porque, que a água que ali estava engarrafa numa bombona de 20 litros, nada mais nada menos, saia da mesma torneira que existia em sua cozinha – contudo da cozinha (ou sabe-se lá de onde) do patrão daquele entregador. Que, a cada pedido feito, a habitual demora na entrega, que sempre o estressava, era explicada pela razão dele, o entregador ou seu patrão, ir até a torneirinha mais próxima (da cozinha ou sabe-se lá de onde) e calmamente, sem pensar na pressa do cliente, nem na quantidade de pedidos esperando ansiosos, encher a bombona com seus 20 litros.

Água que vinha da torneira e que ninguém desconfiava, sendo entregue de casa em casa, de porta em porta. Velhos e crianças, jovens e adultos, canários e chihuahuas, consumindo, dia após dia, gole após gole, sem se importarem, uma água com seus tão importantes índices de bário, estrôncio, cálcio, magnésio, potássio, sódio, sulfato, bicarbonato, fluoreto, nitrato, cloreto, não medidos, nem determinados, e muito menos nada de coagulação, floculação, decantação, filtração, desinfecção, fluoretação, correção de PH, temperatura na fonte e alcalinidade.

É água, não é? Inodora, insípida e incolor.

Não pensou como controlavam de modo impecável toda aquela água abundante proveniente de fontes, aquíferos, termas, cisternas, represas. Não imaginou os testes laboratoriais, coletas e amostras, químicos, engenheiros, especialistas, doutores e nem no quanto daquela água era distribuída diariamente. Não pensou em todo o risco de contaminação, numa cidade dizimada, postos de saúdes e hospitais superlotados, soro caseiro de minuto a minuto, crianças com a barriga com o dobro, o triplo do tamanho normal. Não pensou nas grandes empresas e corporações, com caminhões e entregadores pra lá e pra cá, as máquinas, os detalhes, a publicidade, a logística, ISO e Inmetro, a fiscalização, os advogados, todo o sistema. Nos litros e volumes cúbicos canalizados que jorravam descontroladamente do coração da mãe Terra para matar a sede daqueles tantos. Não pensou e nem quis saber.

Apenas pensou que o cara podia muito bem ter 500 garrafas rodando por ai, na vizinhança, com água vinda de uma caixa d’água de sabe-se lá quantos litros, com seus cantos pretos e verdes de limo, algas e outras coisas, quase nunca limpa, com sua tampa meio desbotada, rachada, um entre e saí desordenado, bem no alto, no telhado, com um ladrão bem posicionado e o hidrômetro adulterado, como em várias caixas d’água e residências por ai. Que a água podia também vir dum fosso, dum poço, da chuva ou dum puxadinho vindo da rua. Que poderia ter um cano quebrado e podre, saindo da parede, aberto para misturas com qualquer coisa, que mijavam do lado, que tanto fez tanto faz. Era só torcer a torneira, esperar o serviço ser feito e voilá! Água para todos!

Pensou mesmo que o cara teve essa ideia genial quando viu a quantidade de gente que bebia água vinda direto da torneira e nem se importavam. Abriam, enchiam seus copos e bebiam, dois ou mais litros por dia, que é o que dizia os programas na TV e todo mundo acreditava. Pensou que se o patrão do entregador pensou que se essa gente toda bebia água assim que mal faria se ele vendesse a água da mesma maneira que eles bebiam em sua casa? Simples assim.

“Água da torneira nunca matou ninguém, é limpinha e se ainda vier com formiga, melhora a visão”, já dizia sua mãe, pensava ele, o patrão, enquanto contava o lucro do dia em seu moquifado escritório, assim pensou Daniel, de pé, escorado na pia com louça suja de 3 dias.

É H2O, não é? Sem gosto, sem cheiro, sem cor.

E o rotulo, a tampa? Como num espirro, veio à sua mente a imagem de um famoso filme passado na Índia. Isso seria o mais fácil, já que era só ter quatro máquinas baratas, quatro mãos: duas para apertar e tampar e duas para rotular e lacrar. Se os indianos faziam isso com Super Bond, imagina nós aqui no Brasil, ham! Pensara nas bombonas azuis e laranja. Sempre as vias pelos caminhões por ai e perguntava-se no que será que diferenciava elas? E a moça do telefone ainda perguntava qual marca queria, porque tinha uma mais barata e outra mais cara, eram 3 marcas até, lembrava Daniel, naquela tromba d’água de pensamentos

O entregador ali montando o negócio todo e Daniel com aquele olhar vazio, parado, mirando o reflexo do sol proporcionado naquele garrafão, o olhar dum peixe fora d’água. E enquanto pegava as moedas e dois reais e pagava o entregador pela água maltratada, a ideia confabulava e confabulava em sua mente. Em um minuto e meio, Daniel pensou numa grande sistema, maior que das próprias empresas de verdade de água, por toda a cidade, por todas as vizinhanças, torneiras e mais torneiras, enchendo garrafões e bombonas sem ninguém desconfiar. Litros e litros, lucros e lucros.

Confabulava e confabulava. Confabulava e confabulava. Confabulava e confabulava. Confabulou Daniel tanto que ficou com sede.

Na verdade, já estava com sede, naquela quente tarde, sábado, muito tempo esperando o entregador, estresse, ressaca, cactus, Sol, farofa, tosse seca, Ah! Nada de bom na TV, o gato miando, o relógio que não parava, as horas que passavam, o vizinho ouvindo Lulu Santos pela quinta vez, as moedas contadas uma a uma, milhares delas, Ah! Até mais, obrigado, ímã de geladeira com o telefone, Aldo Água e Gás, o garrafão instalado, Ah! Que maravilha, pronto para ser consumido, 20 litros, um oceano, nunca vi nada igual a isso, Ah! Meu Deus, que líquido, que maravilha, como pode ser assim tão bom! Quero dar um mergulho! Ah! Ah! Ah! E Daniel já não ligava mais pra nada. Não confabulava e nem queria saber de mais nada.

Abriu a torneirinha e a água tomou o copo até a boca, o deliciando como um cavalo chucro e sedento à beira de um salvador açude após longa e extenuante jornada, bebendo cada gole como um afogado. Vale-me Deus!

Não importava mais que a água vinha da torneira. Não sendo mijo, tá bom. E se vier com formiga, melhora a miopia, dizia sua mãe.

Um brinde!

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