Esta é a história de Suzette. Desde criança, uma das coisas que Suzette mais gostava era falar. Dizem até que suas primeiras palavras não foram ditas aos 2 ou aos 3 anos, como de costume, mas logo depois que foi parida, perguntando ao doutor como ia a família. Vale lembrar que desde cedo, além de falar, seu interesse era focado na vida dos outros. Suzette falava e falava, culminando com sua mãe a comparando com o homem da cobra, típica figura folclorológica que não para de falar um singular minuto sequer.

Suzette, desde pequena, possuía o costume de escutar conversa de adulto. Diziam que não era recomendado criança escutar conversa de adulto, porém, a meninota não dava ouvidos, mesmo recebendo beliscões da mãe e cascudos de seu pai, principalmente quando a reclamação sobre o coco do cachorro do vizinho no jardim chegava aos ouvidos do mesmo ou o comentário impertinente sobre a feiura do vestido cor de burro quando foge da vizinha chegava aos conhecimentos desta. Mesmo com as retaliações, a menina não se importava: o que fazia seu coração bater mais forte era uma boa fofoca quentinha. E antes o que era apenas conversinha besta futriqueira de portão, virará a feia mania da conversa fuxiqueira de comadres vizinhas de janela.

Passava o tempo e quanto mais crescia, mais Suzette falava. Falava e falava, falava e falava. Falava não só pelos cotovelos, como pelos tornozelos, uma tremenda boquirrota. Entretanto, percebeu certo dia, ao mirar-se no espelho, observando uma afta surgida inesperadamente, que sua língua mal se encaixara em sua boca, timidamente fugindo do controle do aparelho, da cesura dos lábios. Apesar do fato extraordinário, que o comprimento da mesma não sabia nas dimensões estipuladas, não ligou para isso. O tempo passava e passava e quanto mais falava e falava, sua língua crescia e crescia. Suzette se achava exótica e ímpar por ter aquele linguão, não olvidando de higienizá-lo sempre, após os dentes, com um hiperbólico limpador de línguas.

Todavia, a partir do momento que começaram a chamar a meiga menina de perereca de dentadura e jararaca lambedora, Suzette entristecera-se. Sua língua dos habituais 3 cm já passava dos 15, o que causava a surpresa daqueles que viviam ao seu redor. E quanto mais falava, mais sua língua crescia e mais sua fama se fazia. Se fazia tanto que tinha parquíssimas amigas, todas com medo de serem a próxima vítima, sendo que a mais próxima era conhecida simpaticamente pela alcunha de Patinha, por comportar os maiores beiços da vizinhança e sempre fazer biquinhos de pato para suas selfies, compartilhada nas redes sociais numa média de 50 registros por dia.

Suzette queria mudar sua fama, mas agora já era tarde. Tida como notória língua de sogra, suas fofocas chegaram a tal ponto que era conhecida por toda a cidade e um jornal quis a contratar para escrever fofocas da vizinhança. Suzette não só negou como falou que ia falar para todos na vizinhança que o jornal publicara mentiras sobre ela e sobre todos, o que ninguém acreditou, já que Suzette era uma linguaruda nata e isto não passava de balela. Lembrara de sua vó lhe contando a história do menino e do lobo, que mentia sobre a falsa ameaça do animal e isto lhe trouxe tamanho desconsolo. Suzette estava sozinha. Sem ter com quem e do que falar, Suzette começou a gravar sua voz, a falar de frente para o espelho, mas sua língua era tão grande, tão grande, que suas palavras já saiam todas degringoladas, se cuspindo toda, sendo que nem ela entendia o que falava e só registrava incompreensões. Porém, há males que vem para o bem.

“Tire seu sorriso do caminho… Que eu quero passar com a minha dor…” Então, triste com a repercussão de suas fofocas, Suzette não viu outra opção. Não viu outra opção a não ser se enforcar na magnitude de sua língua. Pensou em cortar a pobre língua, contudo iria ser uma crueldade, já que não poderia viver com a dor de perder sua amada amiga, preciosa linguinha, derradeira companheira. “Hoje pra você eu sou espinho… Espinho não machuca a flor…”Prefiro a morte que a mudez, disse num íntimo testamento. Suzette se preparava para o final adeus, subindo num banquinho, com sua língua cachaqueolada em seu pescoço, quando um jovem garboso, passava descompromissadamente pela calçada e avistara a jovem tentando o ato desesperador do suicídio. “Eu só errei quando juntei minh’alma a sua… O sol não pode viver perto da lua”. Arrombou a casa heroicamente e pôs-se diante de Suzette, que fazia o último sinal da cruz. Disse: Não, divina moça! Quem tem boca vaia Roma e com a sua vaio a Lua! Se a língua da mulher é sua espada, a língua da sua graça é a fabulosa Excalibur! Não faça isso, pelo amor de São Geraldo!

Seu nome? Mauro Boca de Garoupa.

Não podia-se contar coisa qualquer para nosso molecote Garoupeta que a coisa em si se tornava conhecida do grande público num molhar de lábios, com a potência do auto-falante de um carro de picolé. Saiam de suas profundezas palatais os mais sagrados segredos e não importava de quem fosse, no momento que fosse, com tais proporções que reverberavam mais que os sinos da igreja central. Vale lembrar que o costume vinha de família, já que seu pai era o valorizado Mauro Boca de Gamela, famoso narrador esportivo e colunista high society da região, reconhecido por suas estardalhadiças barrigas jornalísticas, confundindo numa dessas um estimado capitão de fragata com um esculachado cafetão de gravata. Mauro olhara Suzette chorando, com a língua pra fora, parecendo um vira-lata entusiasmado com a coleira, amarrada, levantada e ficou transtornado. Nunca imaginara que algo daquela completude pudesse preencher seu âmago tão por completo.

Seus olhares se cruzaram e a boca de Mauro foi ao chão, literalmente. Uma bocarra indescritível, de lustrosos incisivos, por assim dizer. Suzette sentiu em si a salvação do amor, a preciosidade de uma paixão. Não acreditavam nisso, que com seus órgãos tão expressivos alguém os completaria, perfeitos, um feito para o outro, tal e qual dente e gengiva. No seu primeiro beijo, o primeiro de ambos, inéditas bocas virgens, dado ali mesmo, num arrombo, considerou-se um fenômeno de natureza extraordinária, onde toda a extensão lingual de Suzette coube perfeitamente na cavidade bucofacial de Mauro. Contudo, algo ainda os aguardava.

Sem dar por si, durante seu sublime ato de amor, a cavernosa embocadura de Mauro engolira por inteiro a caixa craniana de Suzette, tal como uma sucuri dilatada, esfomeada. E esta, assustada, colocou a língua de fora num último ato desesperado e esbaforido de salvação, grunhindo por socorro. Enquanto Mauro deixava Suzette sem ar, abafada em seu hálito grutal, numa prova de devoção, Suzette esparramava sua nababesca língua por dentre o tubo laringal do recém-amado, sem se dar conta do prejuízo desta torrente demonstração de afeto. A imagem remetia a um sem precedente ouro boro. Não deram conta disto e acabaram sufocados, engasgados, afogados, matando-se como Ceci e Peri, Riobaldo e Diadorim, Cirino e Inocência.

Enfim. O que tira-se disso tudo, desta retumbante história de amor, meus amigos? Que em boca fechada não entra mosca? Não. Que peixe morre pela boca e vacilão pelo nariz? Não. Que a língua é o chicote da alma? Talvez, mas não é bem isso. O que sinceramente se tira desta história eu deixo para suas íntimas e profundas reflexões, meus amigos.

Até mais.

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