E eles queriam. E eles queriam, queriam e queriam. Como queriam! Como queriam!

Digo que após despertar, rodeado em minha cama, fui surpreendido com muitos deles, no meio de parentes, amigos, conhecidos, aparecidos, todos eles e elas, todos, queriam. Possuíam aquela vontade, fissurados naquela ansiedade incomoda. Sorrindo transtornados, me olhavam hipnotizados ansiando esse querer. Eu não entendi, não sabia o motivo, a duvida me subiu a garganta, assustado numa solidão incomum. Tranquei-me no minusculo banheiro e, voltando aos meus pensamentos, me perguntei mirando ao espelho o que era aquela gente toda, aquela fome sem igual, ariscos. Levei a mão a face tentando entender o que acontecia ali, todavia a cada um que revelava-me, o susto se tornava cada vez mais inflado, cada vez maior.

Sai e aquela gente toda me olhava descontrolada, faminta. No meu quarto, na cozinha, por dentro e entre as frestas, onde quer que eu fosse, o que quer que fizesse, ali estava alguém com seu querer, estranho forte desejo. Perplexo, fui à sala e sentei no que me sobrou , uma resta de chão, um canto do canto onde a vergonha agonizava. E enquanto me olhavam, devoravam, abri o jornal para disfarçar o nervosismo inusual e aí vi. As colunas, as opiniões, reportagens, classificados, estatísticas, todas e todos, explícitos que queriam, me queriam. Escutava as máquinas a baterem o meu nome enquanto eles batiam o pé e faziam birra. Queriam! Passavam a mão em mim, era como um fetiche, um fantoche de exposição barata. Convocariam guerras, chamas, tumulto, desordem! Os olhares ao meu redor, balas do meu fuzilamento. O que era aquilo?

Liguei a TV, o rádio, olhei pelas janelas, lá estava: Queriam! Queriam! Queriam! Malditos! Não sossegariam e não suportei, não aguentei, todos fazendo de mim alvo dessa ingrata vontade! Zumbis esfomeados! O medo e o pavor em minha casa, meu lar, não estava seguro. Fugi à rua. Pensamento inútil, pensamento condenável. Sai e fui afogado por aquela onda. Cartazes, gritos, panfletos, chuva de papel picado, ordem e desordem, tinhosa fanfarra. Veneravam, tudo centrava a mim, o eixo era eu. Queriam! Ó deus, ó diabo! Ínfimos! Queriam! Me pus a correr e corri e corri e tropeçando, esperneando, a ânsia era de morrer. Por cada canto escuro onde me metesse vinham os holofotes para queimavam minha inocência, as lentes registrar meu desabar. Tentei me esconder em um beco, uma sarjeta suja e fétida, porém todos os dedos do populacho apontaram a mim, farejaram como a raposa perante a lebre. Riam como hienas perebentas e queriam a mim, queriam eu, meu todo. No meu cabo, no meu rabo, cães sedentos pela caça, lagartos venenosos papando ovos.

E às lagrimas e soluços, gritava transtornado. Sentia o corvo bicando-me com seu maldito e explicito querer! Eu quero! Eu quero! Sangrava perante a ave negra e ela relhava! Eu quero! Eu quero! Devoradora de consciências com suas garras a horda vinha! No meio daqueles loucos, em insana loucura agarrei um deles: Eu o mato! Eu me mato! Eu o mato! Rugi e ao redor sorriam e aplaudiam; a platéia e o leão. Festejado, atrelado a mim, o outro ria, feliz, gargalhava! Parecia que a cada apertão, a cada safanão, seu prazer era multiplicado. Felizes! Sedentos, sebentos babavam, afogavam-se em sua venenosa vontade!

Eles queriam! Vermes carrapatos! Queriam! Parasitas virulentos! Me tomaram como réu, como condenado! Eu, logo eu, fosse! Logo eu! Porque eu?! Nunca quis, nunca fui, nunca seria, nunca serei, será, nunca!

A massa era mais forte que minha própria vontade. Por que eu? Por que eu? Por que? Nada adiantou meu desespero e atirei o outro e desabei ao chão, espástico, rubro, com todos trepidantes que eu aceitasse seu desejo. Era estase, catarse, os asquerosos sem princípios com seu sentimento destrutivo. Destroçado, imoral, perguntei o motivo daquilo, a razão daquilo. Implorava pela resposta; logo um homem como eu, sem posses, sem maldades, essa perseguição, esse caos. Por que faziam isso? O que queriam de mim?

E no meio de toda aquela algazarra, entre foguetes e palmas, bandeiras e silvos, um deles se afastou e veio. Feito o silêncio dos inocentes, veio sorrindo, sereno e tranquilo. Austero, bem trajado, seguro de si, passo ante passo, calmo. Cumprimentou apertando mão sobre mão o outro, estimando sobre sua bondade e astúcia. O pediu para se afastar e foi prontamente atendido. Olhou para mim e, mesmo sabendo de minha condição, continuara a sorrir. Agachou-se, limpou minha face. Focou-se em mim, áureo, quase ao chão, e falou aos meus ouvidos, pausadamente, que ele, eles, todos, queriam um. Apenas um.

Há tempos imploravam por isso. Há tempos. Simples. Imploravam e imploravam e tinham escolhido a mim. A mim. A multidão escolheu a mim. A multidão.

“Não foi nada especial, foi apenas você. Você, você que queremos. Imploramos que entenda e não reaja” E queriam um. Apenas um. Apenas um. E a multidão escolheu apenas um. Sorrindo ele me disse que a multidão queria, me queria. E escolheu a mim, queria a mim.

Queria um. Apenas um.

E se fez, assim de mim, um herói.

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