Pharmácia 24 horas

Só entrei na Pharmácia 24 horas porque não tinha nada para fazer aquela hora da noite. Letreiros em neon, um grande balaio com fraldas, apenas um atendente, com cerca na vidraça e eternamente com o aberto aceso.

Não queria nada, mas peguei uma aspirina por desencargo de consciência. Me pesei também. Vi quanto custava o enxaguante bucal. As camisinhas. Fiquei olhando os shampoos, sabonetes, qualquer coisa, qualquer coisa. Todas aquelas drogas.

Devia ter umas 50 fraldas naquele balaio. Bem na entrada, um cercado suspenso, de grades brancas, com um cartaz na frente escrito “Pacote 52 Fraldas” e um valor que não me lembro, letras vermelhas, fundo amarelo. Era muitas, 52 vezes muitas. Eu pensei como seria bom chutar tudo aquilo ali, aquelas fraldas, tocar tudo pra cima e sair chutando, o pacote, enquanto não estavam cheias de merda e mijo. Dai não teria graça nenhuma, chega a ser triste só de pensar.

O atendente só ficava me olhando, pra nada. Quantas horas ali, não tinha nada pra fazer, nem eu, nem ele. Nem senti vontade de roubar nada ali, ele ali me olhando, só olhando, chato. Na verdade, até tive vontade de roubar alguma coisa mesmo, um protetor solar, uma pasta de dente, uma paradinha massa, brilhante, colorida, com gente sorrindo na embalagem, saúde, vida e bem estar, sabe, como essas coisas de Pharmácia, de supermercado, que você fica com vontade de roubar só porque brilha mais que outra, a grama do vizinho, filho da puta do vizinho. Tive essa vontade, mas não fiz nada. Aquele merda me olhando ali, deveria ter roubado mesmo e saído correndo rua afora, noite, não tinha ninguém, dois cachorros quentes ali, quem tava comendo o seu não ia sair dali pra correr atrás dum maluco retardado roubando meia dúzia de pastilha pra garganta, não é? Sua coca-cola ou um xarope pra tosse? Queria ver ele sair da Pharmácia 24 horas e quebrar seu recorde de nunca ter saído da Pharmácia por menos de 24 horas. Até fiquei pensando se ele não dormia, devia tomar umas bagas e ficar ali, mas isso foi como a vontade de roubar. Logo passou, essa ideia tola, o vidro de Biotônico Fontoura me distraiu.

Sai da Pharmácia sem levar nada e continuei andando, andei mais uma meia hora, 40 minutos. Ainda me lembro daquele neon, do cercado de fraldas descartáveis, do gosto de Biotônico quando era pequeno. Se pudesse tinha roubado ele, o neon, o de aberto. O neon de aberto que ia fechar a Pharmácia 24 horas. Quem sabe assim o cara pudesse dormir, coitado.

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