– Eu não te amo mais.

Carolina falou isso, enquanto pegava o sutiã largado no chão. O cachorro olhava para ela, abanando o rabo, não tão rapidamente quando ela, que se espremia e abotoava a calça jeans, fitando um cigarro.

– E acho que não devemos nos ver mais.

Dito isso, com a bolsa à tiracolo, saiu pela porta sem dizer tchau.

– Foda-se.

Nisso, na cama, Luana olhava para o teto, com os peitos de fora, apontando para o detalhe bizarro de um elefante, que se fazia borrado na pintura. E, pensando compenetrada, tentava decidir: omelete com guaraná ou café e misto quente do Tadeu?

***

– Ontem fiquei das 3 da tarde até uma da manhã assentando piso. Peguei e fui que fui.
– É?
– É. Isso que comecei na terça. Na terça, fui das 2 da tarde até 11 da noite colocando piso. Tinha que assenta, passa massa, rejunta, tudo, tudo. Dai na quarta eu parei. Na quinta, fui das 3 da tarde até 10 da noite, fui deixando tudo retinho, deixando tudo assentado. Era piso, era trabalho, Jesus amado. Dai na sexta parei, fui viajar com a mulher e mais os dois, né. Dai sábado eu tava viajando, (esfrega as mãos no rosto) fui com a mulher pra casa da mãe dela… ixi, incomodação, nem te conto. Mas dai, domingo de manhã eu voltei, almocei lá, fizeram uma galinhada lá, comi mas nem bebi, e dai voltei a coloca piso. Fui… Dai fui das 4 da tarde, por ai, até umas 1 da manha. Fui que fui, rapaz, era piso que não acabava mais, Jesus do Céu, mas fico tudo bonito, tudo certinho. No fim, deu banheiro, cozinha e área de cinco andares, piso atrás de piso. Deu trabalho, era piso, puta merda, nossa Senhora, mas que fico bom, fico. Parecia o velho Irandir Macedo, gargalhava, assentando piso como se não tivesse amanhã.

O baixinho, com a toca preta escrito Motorhead, esfregava as mãos espantando o frio e só ouvia o grandão, blusa de lã vermelha, sorrindo, narigão, comentando o trabalho que fizera durante a semana, esperando o ônibus.

***

“Arthur Miró/Diga lá, menino/(tumtum – há duzentos metros, pare no semáforo)/O que é que você quer ser quando crescer?/Eu quero ser jogador de futebol/Jogador de futebol/Anabela Gorda/Diga lá, menina/O que é que você quer ser quando crescer?(tumtum – há cem metros, pare no semáforo)/Eu quero ser dona de casa atuante ou mulher de milionário/Dona de casa atuante ou mulher de milionário/Jesus Correia/Diga lá, menino(tumtum – há cinquenta metros, dobre a esquerda)/O que é que você quer ser quando crescer?/Eu quero ser tesoureiro-presidente ou liberal como você/Tesoureiro-presidente ou liberal como você/Esses são meus três filhinhos(Chamada – Julia – Atender?)/Artur Miró/Anabela Gorda/Jesus Correia/Esses são meus três tri-gênios. (Alô? Alô? Helena? Nicolau? Oi. Baby… Já tô chegando. Tá. Olha só. Oi. Não esquece de trazer o presente, tá? Tá. Era só a pedra né? Sim, a esmeralda. Tá, tá aqui sim. Eu já tô chegando. Tá. Olha só, mais uma coisa. Diz. Você lembra que as coisas que tavam aqui embaixo eram iguais a que tavam em cima? Sim… É que tão todas fora do lugar. Mas todas elas vieram do mesmo lugar, lembra? Sim, é verdade. Certo. Chegando aí a gente arruma elas, ou depois, não sei, eu já tô chegando. O seu Hermes e dona Maria já chegaram? Já. Legal. Eu já tô chegando. Tô quase no Chico Toicinho. Tá. Baby. Oi. Se puder, passa no posto e compra um chiclete. Só? Só. Tá. Tá bom. Beijos, baby. Beijos.)”

***

Sorriso com um dente meio encavalado. Terno, gravata vermelha com bolinhas azuis. Cinto e sapato de couro:

– Patrão, vô te contar, a vaga pra ser garçom aqui é uma das coisas mais disputadas que se vê, vô te dizer, é foda. Quase que já deu morte ai. Copa do Mundo, Fórmula 1, eh, eh, bobagem… Essas porra não chegam aos pés disso daqui, é tudo fichinha, brincadeira. Não é só a disputa entre tu e ele e mais uns 20, tem os chefões, os cabra também que brigam pra por gente de confiança aqui. Por baixo, os que mais mandam tem três aqui, que só ficam de butuca, escuta aqui, ali, capta tudo e depois entrega. Tem gente aqui que se faz de laranja e ainda serve suco, diz a boca pequena. Delação premiada, só voando, mosquinha, filho da puta. Teve um que teve 5, mas aqueles tempos eram outros, já faz tempo ai. Ele que mandava mais, veio lá de cima, lá do nordeste, norte, cabelo alisado pra trás, baixinho, boca mole, eh, essas porra tudo, tinha fazenda pra cacete, boi que dava pra alimenta uma China por dia, brincadeira. Teve garçom aqui que deu carro, terreno, arrendo a vida, tudo pra conseguir uma boquinha aqui, fica no meio da corja, da elite. É aquela coisa, faz contatos e logo recupera tudo, fácil, fácil. Em quanto tempo? 5, 7 anos, é que leva um tempo pra crescer, tu pode ser escolhido, mas tem uma certa hierarquia também. Eu to aqui faz mais de 20 anos. Eu só sirvo gente do PMDB, mas já servi uns do DEM, do PP, que é pra quem eu faço campanha também. Te dizer que eu preferia até assim, mas hoje tem cada partido, tem que servir essas merda aí… como disse o senador Romário, entraram no ônibus agora e já querem a janelinha? O Lula veio aqui, eu servi um bife à cavalo com um vinho chileno, 2007, que ele gosta, já tinha pedido outra vez. Pediu ainda um mousse de maracujá com cachaça pra sobremesa, não me esqueço. No dia, parece que tava vindo ai o ministro da Dinamarca, Suécia, sei lá de onde essas porra, mas acabo que ele não fico pra almoça. Eu trabalho no reservado já tem 7 anos. O que eu já vi de coisa dava pra fazer um livro, minha Nossa Senhora. É mulher, gente da TV, dono duma caralhada de coisa ai, Casas Bahia, Petrobras, gente de fora, essas porra tudo ai, mafioso… mas deixa baixo, deixa baixo, deixa baixo. Quanto eu ganh… Opa, peraí que o doutor tá chamando. Ele gosta de pão na chapa com presunto de copa e rúcula, café com um golinho de whisky. Anota ai que eu já volto.

***

– Pai?!
– Filho?!

Numa noite qualquer, num lugar qualquer, para a surpresa dos dois, pai e filho se encontraram. Ele, procurando algo além de uma simples noite de diversão; queria achar algo que tinha perdido fazia algum tempo. Ele, procurando algo a mais para fazer, para tirar dele a chatisse da vida monótona e cotidiana; queria ser algo que sua imaginação e desejo já não comportavam mais.

Numa noite qualquer, num lugar qualquer, pai e filho, para a surpresa dos dois, se encontravam.

***

– Você sabe porque tem tanta gente se separando nos últimos tempos?
– Porque?, perguntou, ajeitando o rímel.
– É por que ninguém aguenta muito tempo trepando com uma pessoa só. A coisa fica chata, um não olha mais pro outro, não dá nem mais pra dizer um ai, desanima, sabe? Não dá, não adianta: 30, 40 anos, até menos, viu, trepando com a mesma xexeca, o mesmo pinto, não dá, não dá. Baby, a coisa esfria, entra naquela de amizade, de só bom dia, boa noite, nhé nhé nhé, punhetinha. Porra, casamento, parceria, não é só amizade, né, venhamos e convenhamos? Imagina, boba: deixar de trepar, gozar, e ficar só no bom dia, boa noite, pau mole, punhetinha. Pra quê isso? Pra nada! Pra puta que pariu, com isso. Pra puta que pariu!, comenta retocando o batom vermelho escuro do lábio superior, mirando o espelho, vendo se não marcava os dentes.
– Ai, e te digo mais também amiga, quem deixa a coisa fica assim é porque não sabe o que tá perdendo, né? Ai, ainda bem que eu tenho o Evandro: por mais que ele goze rapidinho e eu tenha que escuta ele desabafa da merda toda da mulher dele que só faz merda, ainda ganho bem pra isso, gargalha. Além de puta, sou psicóloga, mas pelo menos, ganho bem!, gargalha mais.
– É né! Ai! Termina logo aí e vamô logo que eles tão esperando a gente. Será que pediram o temaki de lagosta, com aquelas bolinhas? Ai, adoro quando venho aqui, me sinto tão importante, uma rainha, uma lady, diz entre risos e boas lembranças.

***

– Alô? Alô? Al…
– Boa tarde, a senhora Rosana Machado de Assis se encontra?
– Quem deseja?
– Aqui é Vanessa Araujo, da central Santander de bancos. A senhora Rosana Machado de Assis se encontra?
– Não, não se encontra, querida. Ela tá viajando.
– Ela não se encontra?
– É, ela tá viajando. Só volta daqui uma semana.
– Tudo bem, senhora. A central Santander de bancos agradece sua colaboração e tenha um bom dia.
– Bom dia. Uxi, que abuso! Ligam toda semana. Agora só digo que tô viajando, volto daqui uma semana, digo que sou a Teresa e que a patroa não tá, gargalha. Ah saco, essa gente… Ai! Calmaí, Jéssica, sua vaca!, reclamava a senhora Rosana, 53 anos, aposentada por invalidez pela perda de um dedo mindinho num acidente de trabalho, na caixa registradora da loja de conveniências diversas que trabalhava, que a manicure tirara um bife do dedo anular.

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