Eu quero uma mulher que me escreva poemas de amor.

Não me importa que seja alta ou baixa, gorda ou magra, morena de tranças ou de moicano verde. Não importa que tenha um dente quebrado, nem quantas dobrinhas na barriga, sardinhas em cima do nariz, nem que seja assim ou assada. Não importa essas desimportâncias, ignorâncias, mas sim que me escreva poemas de amor.

Que use as palavras do fundo de seu coração feminino, coração de menina, moça e mulher, tão terno e materno, tão puro e sutil, como só um coração feminino pode ser. Que sejam poemas de amor sublimes como as nuvens azuis e rosas de algodão doce do amor e me escreva poemas sobre este, sobre o nosso amor.

Uma mulher que me escreva poemas de amor para cada sol e lua e eclipses, para cada inverno, outono, primavera e verão, para cada conchinha que as ondas tragam, para cada dente de leão que soprarmos e desejarmos juntos que nosso amor nunca acabe. Para cada beijinho na nuca, nas palmas da mão, na batata da perna, na trave da boca, para cada banho de chuva, de mangueira, de língua. Poemas de amor para cada segredo ao pé do ouvido, para cada olhar perdido, para cada A não dito, para cada minuciosidade miúda perceptível e palpável apenas e somente inerentes às sensações e sentidos embriagados e contagiados pelo sentimento maior e pleno que é o amor.

Poemas de amor para cada farpa boba, cada tragédia boba, briga boba que tivermos. Para cada porta batida, cada ciúme exagerado, cada reclamação descabida, cada cara feia, feição emburrada, cada olhar ressabiado, cada discussão sem hora para acabar, para cada “sai daqui!”, “nunca mais quero te ver!”, “você só pensa em você”!, para cada erro, para cada vacilo, cada vexame, quando faltar o ombro amigo, o abraço consolador, o perdão necessário. Os males do amor também merecem poemas, claro.

Eu quero uma mulher que me escreva poemas de amor porque poemas de amor são uma das coisas que mais resistem ao tempo, assim como mel e o vinho, ingredientes ideais para um gostoso amor. Porque poemas de amor são imortais, como as boas lembranças e nossas risadas; são intermináveis, como os momentos e os segundos perto de você. Uma mulher que me escreva poemas de amor para que eu possa escutá-los depois de um dia difícil, na cama, antes de dormir ou então para que eu possa lembra-los depois de um sonho ruim, no meio da madrugada. Para que eu possa recitá-los indo para o trabalho, numa segunda feira chuvosa, e ficar com um sorriso tolo no rosto, sorriso de quem ama a mulher que lhe escreve poemas de amor.

Eu quero uma mulher que me escreva poemas de amor para que eu possa servir de inspiração para ela – e ela para mim. Que só porque ela me escreve poemas de amor eu me arriscaria a também escrever poemas de amor, nem que sejam com rimas de benzinho, cherinho, docinho, fofinho, piticuticulizinho, ou com palavras extraordinárias como pujante, argentina, voluptuosa, nababesca.

Ou talvez não os escreveria, talvez com outros gestos de amor demonstrariam meu amor por ela, como fazendo pão de trigo com ovo frito ou bolo de cenoura com cobertura de chocolate ou lhe buscando um copo d’água. Gestos tais como acariciando seus cabelos, coçando suas costas, massageando seus pés, segurando suas mãos nas dificuldades, paciente com seus dilemas, a presenteando com flores e orgasmos; com todos esses e os outros gestos de amor (que foram, são e serão infinitos, imensuráveis, inclassificáveis) demonstraria meu amor por ela e seus poemas de amor.

Poemas de amor que não precisem de tradução, seja em dialetos uzbeques ou línguas organizadas em verbo objeto e sujeito. Poemas de amor escritos na língua dos anjos e dos homens, poemas de amor que sejam meditações budistas ou antífonas ou velhas canções tribais. Poemas de amor que deem um samba na caixinha de fósforo, poemas de amor que possam ser poesias de amor, haikais de amor, cordéis de amor.

Poemas de amor aos que precisam do amor em suas vidas, em suas rotinas, que querem sentir o amor que é amar. Poemas de amor que não precisam de dez mil palavras, de épicos versos, que não precisam de jeito para serem ditos, nem hora para acabar e terminar, que não precisam de momentos para serem declamados, que sejam poemas de amor, poemas de amor.

Poemas de amor para que outros amantes possam ver como foi o nosso amor, bonito ou feio, engraçado ou triste, confuso ou simples, torto ou direto, para que possam ver como nos amamos, para que possam sentir-se apaixonados como nós, angustiados como nós, para que percebam para que percebam as nuances peculiares e as coisas óbvias do amor.

Eu quero uma mulher que me escreva poemas de amor porque me admira, porque me quer, me valoriza, assim como eu a admiro, a quero, a valorizo. Uma mulher que me ame, que eu a ame.

Eu quero uma mulher que me escreva poemas de amor.

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