X-ota Lanches 2

Tinha o Zé, cujo nome era Roberto, mas que todo mundo chamava de Zé. Barrigudo, atarracado, um bigode preto, manco de uma perna porque, quando mais jovem, foi parar com uma bicicleta – Uma Caloizinha Aro 14, diz ele – debaixo de um caminhão.

Coisa feia, rapaz, deixou ele com a cara toda inchada, tudo que é direito e esquerdo quebrado, amassou o black power e ainda deu de presente uma peça de platina no fêmur esquerdo, 15 cm, 6 parafusos e uns tantos meses de cama. Mas o pior de tudo foi que no finalzinho da recuperação, quase tudo certo, o coitado foi inventar de descer 3 degraus de casa na chuva, segurando uma caixa de banana, ajudando o pai na feira, o chão liso feito sabão, que só fez ele deslizar e dobrar a peça, que ficou pendurada ali, com ele todo estabacado e molhado.

Diz ele também que, logo depois da recuperação, por incrível que pareça, foi jogar o estadual pelo Capivari, em 1973, improvisado na lateral esquerda. E por incrível que mais pareça ainda, fosse bem nesse ano que, quando eles foram rebaixados, sem ganhar uma partida sequer, menos 50 de gol, ele ganhou disparado o troféu de jogador mais bonito do campeonato. Só que essa deixa pra outro momento.

De vez enquanto ele e o Cledenir pegam a voz e violão e que quando começam a cantar, vai longe a coisa. Eles tem um livro chamado “o livro maldito”; um livro grosso, acabado, de capa vermelha aos pedaços, com várias músicas de Canario e Canarinho, Cascatinha e Inhana, José Rico e Milionário, João Mineiro e Marciano, Pena Branca e Xavantinho, Chitãozinho e Xororó, Tonico e Tinoco, Leo Canhoto e Robertinho, e por ai vai, nada parecido com o que tem hoje por ai. E sempre que a turma se juntava, no repertório nunca falta a mais clássica, “A Moda da Mula Preta”.

O Zé chega a chorar quando toca essa, lembrando, de quando era pequeno e vivia pra lá do interior, entre um lado e o outro da ponte, duma mulinha que ele tinha e gostava muito, que foi seu primeiro amor, mesmo nem entendendo dessas besteiras de gente grande nem nada. Ele chamava ela Dalvy, que tinha os olhos mais verde que a esmeralda mais valiosa.

Era Dalvy pra lá, Dalvy pra cá, diz ele que até amarrava um laço cor de azul na bichinha pra deixa ela mais bonita que nunca, que dava capim de primeira, passava o pente nela, olhava o dente pra vê se não tinha craca, que era a mulinha mais carinhosa da região. Só de lembra disso, ele suspira fundo, até hoje. Que quando era de noite, a mula relinchava por ele, e que ele ia lá fora de casa, carinhoso que si só, atender os pedidos dela. Era ele a mulinha, cavalgando, pra cima e pra baixo, as vezes um na frente, outro atrás, as vezes, os dois juntos, lado a lado.

Só que, conta ele, um dia ele voltou da aula, todo faceiro, e que foi no pasto brinca com dengosa e não achou ela. Que foi prum lado, foi pro outro, foi até lá longe, no rancho fundo, e que gritava pelo nome dela e nada dela vir. Andou, andou, até que se cansou e chegou em casa. Quando chegou, viu a mãe assobiando uma modinha, e perguntou: “Mãe, cade a Dalvy?” E a mãe, sem jeito, apertando o pano de prato contra o peito, olhou no fundo dos olhos infantis do pequeno e com dó no coração, lhe roubou a felicidade “O filho…”. Nem precisou dizer muito, nem dizer mais nada. Foi como se tivessem matado seu companheiro, que nem o tal do Chico Mineiro. 10 anos de idade, sem nada entender. O complicado é que, apesar da tristeza e depois de tanto tempo, o pessoal ri que se acaba da cena, pois não consegue entender como ele, homem crescido e feito, pode cantar aquela música e lembrar da travessa chorando, sendo que até feito cão tarado uiva pra lua cheia. Vai saber, né.

Tem também uma história que numa dessas festas da lanchonete, o pessoal inventou de ir prum sitio dum parente do seu Edson, um lugar bonito, cheio de verde, uma casa grande, tinha um alambique, vários quartos, toda aquela coisa.

Chegando lá, começam a festa; carne, cerveja, cachaça, e da-lhe tudo isso, pau e pau e pau, e, puta que pariu, cantoria também, o Zé já chorando “doente de amor”, com o livro maldito na mão, e foi nisso ele vê uma vaca lá fora, tranquilinha, na dela, e começa a dizer pra todo mundo que ama a vaca, que ela lembrava a Dalvy, o amor dele pela Dalvy, um amor fraterno, que tinha os olhos verde dela, que coitada dela ali fora, uma vaquinha malhada ali, mimosa que só, sem ninguém pra amar, pra fazer um carinho, que isso não se faz. E nisso o pessoal já todo rindo da cena, vendo o Zé de barriga de fora, chorando bêbado e conversando com ela, lado a lado, fuça a fuça. Não era uma mula nem nada, mas vai saber dessas coisas de amor, né, e quando eles tão quase se beijando, ele se alevanta, faceiro, o umbigo parecendo um poço sem fundo, ajeita a calça, todo machão, e diz: “vou monta essa vaquinha. Pelo meu amor da minha vida, Dalvyzinha querida, vou honrar ela com essa co-irmã de quatro patas”. E não sabe-se como, deu um pulo e foi parar em cima dela.

Mas, rapaz, numa dessa a tetuda só dispara e deixa todo mundo com o olhão aberto, arregalado, e vai indo pra lá e pra cá e o Zé gritando, “aie-e-e-e Dalvy meu amor, mon’amour”, e foi nessa que a vaca deu um pinote boiadeiro danado e só deu tempo de falar “cuidado, Zé!, segura o chapéu!”, dois pra lá, dois pra cá, derrapando, antes que ele se estabacasse todo em cima da merda da vaca. Puta que pariu, bem em cima da merda da vaca, fedendo pra mais de metro. Rapaz, não teve gente que não chorasse de rir naquela casa. Todo mundo bêbado, homem e mulher, se cuspindo de cachaça, se engasgando com torresmo, revirando a língua, rolando no chão, vendo aquela cena ali do homem jogado em cima da merda da mula, não sabendo nem onde tá, olha… até hoje nunca vi tanta gente tossindo, pedindo penico, se escorando na parede, segurando as calças.

Foi só depois de uma meia hora é que foram tirar o Zé de cima do coco, de tanto que não se aguentaram com o fato. E pra dar banho nesse Zé, rapaz, foi preciso chama o Canetinha, o Cledenir e mais um outro perdido lá pra aguenta ele debaixo do chuveiro, tudo bêbado da pinga do sítio, um se apoiando o outro, se mijando na risada. E isso não foi nada: pior é que quando foram ver que aquela era a última muda de roupa que ele tinha ali. Ai é que eles riram como se não tivesse amanhã, foi pra acaba com tudo. Botaram o homem pra dormir com uma camiseta dum posto de gasolina e uma sunga que alguém tinha trazido pra desfila no açude e seja o que Deus quisesse que fosse!

Depois disso, até hoje tem gente que sabe da história e pergunta pro Zé que fim levou a vaca, o amor da vida dele. Ele só disfarça o sorriso debaixo do bigode preto, como quem tem medo, mas não tem vergonha, e diz com toda razão do mundo: tá ali ó, virou X-Picanha!

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