X-ota Lanches 3

O Sílvio era conhecido por Canetinha.

Ademais de uma careca, que era disfarçada ridiculamente com um resto de cabelo jogado por cima e tingido de preto, fruto de uma calvice contraída precocemente, ele possuía uma caneta dourada, luxuosa, entalhada milimetricamente com listas riscadas à horizontal, que girava, voltava e transformava água em vinho, duma marca chique com desenhinho de brasão de alta periculosidade, que vinha com uma pedra de brilhante azul reluzente no grampo e era de longe a caneta mais chique de todas as lanchonetes por ali (e não duvido da cidade, do estado e do pais). Enquanto o povo usava qualquer coisa pra marca os pedidos, até mesmo lápis de cor, o Canetinha não; usava uma caneta que tinha que enrola a língua toda pra fala o nome e que ele gaguejava todo, mas que deixava ele pra lá de orgulhoso, mesmo não sabendo bulhufas do que tava falando.

Tinha gente que vinha de longe, que deixava de comer bacalhau na Páscoa e festejar as bodas de ouro do casamento da filha, só pra ter o pedido anotado pela caneta mais famosa da cidade, e que ainda juravam de pé junto que deixava o lanche mais gostoso. É o que diziam, não tô mentindo, pode perguntar pra qualquer um aí. Um X-Bacon marcado pela caneta do Canetinha não era só um X-Bacon, era um Great Excellence Pigs Parts with Supreme Salad Special Sandwich, na palavra de quem comia e não esquecia; um X-Egg não era só um pão bobo com ovo tolo, era uma extravagância do paladar, era a comunhão universal das cinco percepções dos sabores, um banquete, uma orgia, um ritual sagrado da alta gastronomia.

Haviam aqueles que a tradição de família era ser toureiro, outros serem bancários, outros serem agiotas. Já na família do Canetinha, a tradição era ser garçom. Nem precisava chegar a ser maitre, sommelier, nem cumim, nem boqueteiro; ser garçom já era muito orgulho para a família dele.

Dizia o Canetinha que a caneta era do avô dele, que também foi garçom lá pelos tempos de quando a vovó era mocinha, e que tinha usado pra assinar mais de mil comandas no restaurante da Assembleia Legislativa do estado, de onde foi um dos primeiros garçons, da época de que café da manha era pão com banha e leite de cabrita chucra, e que pra fazer frente e ser reconhecido no meio governamental tinha que usa uma caneta daquelas, mostrando respeito e atitude, e que ele passou pro pai dele, que também foi garçom, dessa vez do empresário mais rico da cidade, que trabalhava com esterco de peixe e ganhava milhões vendendo bosta, que tinha que ter pompa e glamour na hora de registrar um pedido do chefe (“como que eu vou registrar um filé Oswaldo Aranha sem uma caneta dessas, escrevendo assim, sem mais nem menos, com graveto de carvão num papel de pão, meu filho? Não dá, né” é o que dizia o pai dele, dando-lhe cascudos porque ele derrubava a bandeja nos treinamentos, isso já com 7 anos de idade) e que, por fim, foi parar nas mãos do Canetinha, que usava pra registra o pedido do pessoal que vem aqui comer X-Galinha, porção de linguiça com cebola e tomar cerveja barata.

O Sílvio ainda não se tornou um garçom importante (ainda, ressaltava ele, pois tinha recebido sondagens pra trabalha com um craque do futebol que se transferiria pro campeão do estado em algum tempo, e que ontem mesmo a assessoria tinha ligado pra ele, já tando tudo acertado), mas sua caneta dava para ele uma fama sem precedentes.

Um dia desses, uma banda dessas famosas nas ruelas e quebradas veio comer um lanche aqui. Quando o vocalista viu o Canetinha assinando a comanda com aquela caneta dourada, robusta, imponente, cravejada de pedras preciosas, quase teve um ataque. Ele dizia que aquela caneta era uma obra de arte, uma coisa antes nunca jamais vista, que nem de perto a música dele era tao artística assim, que aquela caneta era um monumento sagrado do contemporâneo, que a Monalisa perto daquela caneta era uma rapariga boca mole.

O homem queria porque queria a caneta do Canetinha, e esse dizia porque dizia que aquela caneta era invendável, inigualável, imprestável (ele não emprestava pra ninguém mesmo), que nem por um jatinho, nem por uma Ferrari, nem por uma viagem pra Acapulco com tudo pago, ele trocava aquela caneta. E o homem insistiu, insistiu, prometeu mundos e fundos, carnaval na Bahia, natal nas Bahamas, hospedagem 5 estrelas em Anta Gorda (de onde a mulher do Canetinha era), mas nada.

No fim, quem teve que dar autógrafo não foi o tal do saruê, mas sim o Canetinha, que fico todo sem graça quando os papéis se inverteram. E quando a turma foi embora, ele chegou na boca do caixa e me falou: um autógrafo dessa caneta vale mais que minha coleção de palheta. Te juro, amizade, disse o cabeludo tatuado, emocionado, com um olhar mareado pela tristeza.

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