Todas as boas coisas chegam ao fim
a garrafa de vinho
os intermináveis dias
a escuridão da lua
e o calor do sol
nem a memória será imortal
pois em algum ponto
quem as possui
deixará de existir
levando-as para si
e com isso
nada mais serão
que o passar de um trovão
a descabida vergonha
um romântico espasmo de alegria
livre a vagar pelo ar.

Todas as boas coisas chegam ao fim
e não nos resta esperar
que os corpos apodreçam
assim como a madeira e o pensar
como a saborosa fruta
o impulso de viver
o elevar da gratidão
a firme amizade
os belos jardins
os carinhos, os olhares
o assobiar, o cantarolar
estes, em algum ponto,
apenas nos servirão
para uma breve reflexão
antes do último pesar.

Todas as boas coisas chegam ao fim
a doce ilusão
a construção ideal
o livre arbítrio
os livros e o amor
a corda do violão que arrebenta
a dor que nos mantém vivos
impalpáveis, todos
líquidos como a areia
miseráveis como a riqueza
irreais como o tempo
tentarão resistir
como a mais brava das brasas
o mais torpe delírio
como a ideia impertinente
o sorriso.

Todas as boas coisas chegam ao fim
o dia de amanhã
a noite passada
os minutos que antecedem
os momentos que hão por vir
saboreie, saboreie todos
mesmo os mais amargos
os mais trágicos
saboreie todos
prove-os e sinta-os
deguste-os
como o mais vivaz banquete
como o resto do doce vinho,
o resto de nossos dias
e guarde-os como segredos
como o último desejo
pois um dia servirão
para uma útil lembrança
mesmo que nada eloquente
para saber que há esperança
para saber que tudo tem um fim
até mesmo as coisas ruins.

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