Depois que numa conversas dessas que se presta atenção quando não se quer comentaram que as pessoas só fumavam porque eram tristes aqueles 20 momentinhos do dia que eram pra ser de relaxamento e descontração se tornaram 20 dos mais pesados fardos que ele poderia carregar. 20 momentinhos do dia onde ficava só ele e ele, frente a si sem ser reflexo de espelho, onde ele não pensava em nada, só queria larga a ansiedade e o estresse a cada baforada e que agora se transformaram em uma análise cruel de cada momento de sua vida, da infância a adolescência chegando agora aos seus 31 anos e 15 de 20 inesquecíveis momentinhos.

Demorou duas noites, três, e um sono que custava a chegar para passar aquele desespero rápido, até aquela sentença, literalmente, se instalar em seu id e começar a cutucar seu pensamento como uma pedra no sapato. As pessoas só fumavam porque eram tristes. As pessoas só fumavam porque eram tristes. Mas porque, Deus? O que há de tristeza para se tragar e soprar em um cigarro? Seria o cigarro a muleta emocional que ele sempre não desejou ter? Era tão feliz, alegre, aparentemente pra ele. Certo que tinha dias que acordava que era o Pit Bull desfiando a manga verde, mas isso todo mundo tinha, seus dias de cão, por assim dizer. Mas na maior parte do tempo era amigável ou o cigarro disfarçava. Enquanto via o amarelo dos dedos e sentia aquele cheiro de papel velho numa mistura de nicotina e alcatrão, viu que agora não teria mais para onde escapar. 20 cigarros e cada um era um lenço de papel para seu interior que fumava triste todos aqueles cigarros como a mão na cabeça lembrando de todos os fatos da vida que queria enterrar junto com as cinzas daquele cinzeiro.

Não queria parar de fumar, isso era fato. Tentou adesivo, chiclete, tentou reduzir os cigarros, de alguns para pouco menos, contudo cada vez que acendia um, cada tragada era um incomodo ao seu consciente. Talvez com medo de ter que enfrentar aqueles problemas aparentes ou talvez por desejo mesmo, porque gostava tanto daqueles cilindros de tabaco finamente fechados e enrolados. Começara a fumar, começara a fumar… Já não se lembrava. Começou de um dia para o outro, de uma noite qualquer, numa mesa de bar, numa conversa no intervalo da aula, foi sem querer. Não começou, aprendeu a fumar, viu alguém, assim como beber, beijar, curtir a vida. Achava o cigarro um amiguinho que jamais seria chato e pentelho e que ele poderia compartilhar seus segredos e que ninguém saberia. O cigarro e o café, eram como o amiguinho e seu primo distante gente boa que vem de longe pra contar casos e mais casos, só pra passa o tempo gostoso. Inspirava e expirava e para resolver seus problemas. Seus problemas. As pessoas só fumavam porque eram tristes. Problemas.

Câncer, enfisema, derrame, infarto, pressão alta, doenças, doenças, doenças. E para ele o cigarro era tão bom, o cigarro nosso sagrado do dia a dia, não via o cigarro como esse vilão. Deduziu, da maneira mais sofrida, que, assim como os remédios, as marcas dos cigarros só variavam, mas os princípios ativos eram os mesmos. Hollywood, Diazepan. Free, Escitalopram. Paroxetina, Marlboro. Fluoxetina, Dallas. Amitriptilina, Dunhill. Citalopram, Derby. Sertralina, Lucky Strike. Bupropiona, Hitz. Imipramina, Minister. Venlafaxina, Gudang Garam. Pondera, Plaza. Amitriptilina, Camel. Nortriptilina, L&M. Tamanha foi a incredulidade que não conseguiu ir além disso.

Foi para a varanda do edifício onde trabalhava, levou pela mão um companheiro para ajudá-lo. E naquele céu cinza, abafado, ficou olhando o filtro, a marca estampada, como nunca havia pensado assim? As pessoas só fumavam porque eram tristes. O médico triste, fumava. O astronauta triste, fumava. O escritor triste, fumava. Ficou futricando na memória embaraçada e viu que seu pai e sua mãe nunca brigavam, a família era unida, não havia dívidas, carro, piscina, casa no campo, Natal, Páscoa, Réveillon, os avos e avós, primos, tios, nunca teve algo que lhe chocasse ou mudasse bruscamente sua personalidade. Porque, porque? Na escola, normal, no trabalho, normal, amor, sexo, vida, amigos, altos e baixos, mas nada que fosse muito exagero ou enfadonho demais.
Nunca precisou de terapia, psiquiatra, budismo, dança circular. O que era então o motivo daquilo? Namoradas não tinha pendências, seu time estava bem, o que podia estar errado, o que estava errado? Pensava e se engafinhava quando Maria entrou. Maria, a moça que sentava no computador que ficava atrás dele, uma querida, e que lhe deu um alegre boa tarde e logo emendou, com um arrotinho suprimido: ah! Que maravilha um cigarrinho! Depois de um almoço desses não tem coisa melhor, né João? Hahahah.

E foi nessa risada tão simples e sem jeito que João viu que todos eram tristes, uns mais, outros menos, mas eram. E cada um dispersava sua tristeza da maneira que preferia. Uns no jogo, outros no sexo, outros na TV, na comida. Uns na religião, outro no esporte, alguns no estudo e tantos outros guardavam tudo para si. Ele, e tantos, no cigarro. Sentia que era triste talvez por tudo na sua vida ter sido da maneira que foi, perfeito da maneira que foi, e talvez isso, a falta da tristeza, era seu mal. Essa felicidade sempre supra, sempre ultra, nunca um momento de solidão, de introspecção. Que ele só tinha a sós com seus 20 cigarros. Ou talvez a tristeza fosse outra, sabe… Mas sabe, o que tinha de mal nisso? Não somos uma sociedade sadia e nesse mundo quem era normal, não é o que dizem os especialistas, esses mesmos, especialistas no sentido real da palavra. Cada louco com sua mania, cada triste com sua felicidade. E não precisava esconder para ninguém que para conter aquela mania triste a louca felicidade dele era o cigarro, felizmente.

Olhou para a moça, botou 3 cigarros na boca e lhe respondeu avidamente: quer ver depois de comer no buffet da esquina! Delícia! E os dois assim eram só sorrisos. Amarelados e de gengivas retraídas, mas sorrisos.

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