Crítica vadia

Comecei a reconhecer as formigas da minha casa. Aquelas, que ficam zanzando por cima da pia, em fila pelos cantos e arestas das paredes, tetos e chãos. Um dia, derramei uma gota de mel e vieram algumas; outro dia, um pouco de frutas: voltaram. Então, fui comer pão e doce e lá estavam, as mesmas, eram elas mesmas. Dia após dia, comida após comida, as mesmas, elas mesmas, diferentes entre si tanto quanto seis ou meia dúzia. Então chamei uma de Carla, a outra de Fernanda e a outra de José, as formigas da minha casa, as formigas da minha pia. Vieram outras em outros dias: Susana, Claudia, Rafael; estas apareceram, para comer biscoitos amanteigados, na Terça. Na Quarta, Beth, Gabriel e Nelson, para o jantar de restos de porco e batatas.

As formigas da casa, donas da pia e da minha louça suja, minha pacata sujeira. Eu nem as matava, as deixava viver a natureza, comer o resto, devorar o que me satisfazia, o que me devorada e restava. Quando queria “brincar”, apenas batia em cima da mesa, ao redor delas e as fazia correr e se esconder em seus caminhos sufocantes, buracos impressionantes. As deixava viver, viva e deixe viver, até mesmo as formigas, inofensivas, tão pequenas quando seu silêncio. E eu as vendo, uma por uma, olhando como um pai desconfiado, um gigante que querer garantir a tranquilidade do reino. Era harmonioso, um ambiente biológico de mutua cooperação. Amigas.

Porém, outro dia, acertei Susana sem querer.

É, não era para ser assim, mas estava nervoso, ela subiu em minha mão procurando atenção, carinho, me deixou mais nervoso, não era um dia bom. E logo, surgiu um burburinho, um reboliço, surgiram várias, formaram grupos, fortalecidas. Vierem numa horda, atrás do monstro de 10 metros, ataque ao titã. “Derrubem ele!”, “subam nele!”, “ataquem ele!”, foi o que ouvi do choque de antenas e mandíbulas vorazes. Então, antes da situação piorar, soprei Carla e William, esmaguei Gabriel. Com um só dedo matei Felipe, Jorge, Amanda, Roberta e a pequena Thais. Passei um pano molhado em uma dezena, espanei ao léu outras muitas. Vinham rápidas e tudo foi em minha legítima defesa, juro. Pisei nelas, apertei o dedo.

Acreditem: Não teve jeito. Elas saíram do controle, dominadoras, escravocratas. Inconsciente como uma ditadura, sádicas como bandidas. Saíram do controle, não teve jeito. Saco. E ainda me ameaçaram! Essas formigas, enfestam tudo, sobem na minha comida, me fazem cócegas, acham que podem viver assim, me espiando, andando por aí.

Foi tudo lindo, mas eu sou a maioria, elas a minoria, eu sou o caçador, elas a caça: só vivemos em paz quando um morre. Eu sou o poder, elas são comandadas, patrão e empregadas, a força e a fraqueza. Formigas, humpf! São só algumas milhões contra eu: viril, imponente, colossal. Que mal podem me causar? Vão causar a revolução das formigas? Burras como brasileiros. Onde já se viu…

E aí delas voltarem, aí delas! Saco.

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