Com quantos tijolos se faz uma poesia concreta?

Betoneiras de rimas, carrinhos de mão para lá e para cá, com versos e britas, cal e farinha de mandioca.

Qual o cimento utilizado pelas concretistas? Cuspe ou pau a pique?

Trenas e niveladores são desnecessários – a medida certa é a dada pela mão torta; a mais errada é a mais próxima do que o míope, hipermetrope, astígmata e estrábico olho humano enxerga como reta e correta.

Haroldo e Augusto são arquitetos de uma nova literatura, assentada em um alicerce moderno, fincada em um ranchinho à beira chão, inspiração para as neo-barrocas casas tupiniquins, construídas em ruas sem fim.

Décio, um mestre de obra de mão cheia, diversificado em técnicas de recursos visuais, fragmentações de espaços e ambientes, experimentalismos acústicos, misturas de massas, argamassas e caldinho de feijão.

Mário e Oswald, empreiteiros de um pavilhão onde cabem todos os sonhos do Brasil; 1.500.000 m² de antropofagia e lojas de 1,99.

Azulejos Noigandres, cobrindo as paredes da cozinha e do banheiro, com estampas caleidoscópicas verdes, amarelas, azuis e brancas;
o piso da garagem e da área de serviço de ladrilhos vermelhos e cacos coloridos, retângulos, triângulos e arabescos;
nos quartos, redes para dormir e um ventilador Brisa para espantar os mosquitos e pernilongos;
na sala de visitas, quadros de Tarsila, Anita, Di e Cândido embelezam ainda mais as formas e formatos de Lina Bo Bardi, combinados com um retrato pintado do vô e da vó e um relojão de parede – o passar do trenzinho caipira dá o rumo da conversa;
garrafas de Coca e restos de Cola fazem as vistas de janelas, amplas, dando todas para a rua dos bobos e para um exótico jardim botânico, onde Manuel hasteia a bandeira da República Pau-Brasil – Klaxon é nosso grito de Eureka.

E, feitas num zigue-zague embolado, a elétrica e a hidráulica se vão e se vem, se puxam e se afrouxam, dando choques em quem canta mal no chuveiro e turbinando o liquidificador de doces vitaminas, frenéticos pulsares.

Isso sem contar com a ajuda dos nobres pedreiros do experimentalismo português, todos eles dignos de devido merecimento – ora, pois, são todos lusofalantes com suas variedades e cacoetes, todos embelezadores dessa salada de frutas tão saborosa e suculenta, sobremesa de um belo pirarucu à provençal.

Numa oka prismática, vive o maxista, marginal anti-herói, usando do barro para construir seu forte, sua fortaleza, lar, agridoce lar, de paredes de ouro mineiro e telhados de mato vivo. Se alimenta de um amor ácido e vermelho como pitangas maduras, sobrevive de um amor roxo e parrudo, como o barroso açai : um hacker xamã, funkeiro techno brega, sangue b classe a, portunhol salvaje, pixador de mão cheia, escangalhador de mentes e cérebros, com seus neologismos de trava línguas, cordéis que dão corda ao imaginar; adormece como o jambu e deixa ereto como o café, almoço de farofa de saúva, coxinha e tainha com pirão d’água; de digestivo, batidinha de cachaça, catuaba e guaraná, aquífero Guaraní, chimarrão do Guaíba, chorume do Tiete, água de cheiro, chopinho, tacaca paraense, pororoca do Rio Negro e Solimões, canal da Barra da Lagoa, Fernando de Noronha, o tererê pantaneiro, a torneira pinga-pinga do pé sujo, água benta de Aparecida, o brilho que vem da Chapada Diamantina, o brilho que dá o cabróbró e a manga rosa, lambida na boca do sapo, mordida na mamona e chá de jurubeba pra ameniza o rebuliço.

Chico Science troca uma ideia forte comigo – Tim Maia escuta de canto de ouvido, enquanto bolo um do bom e, em cima da mesa, um bolo de cenoura com cobertura de Nescau nos espera pruma larica das brabas. “O problema de experimentar muito é engordar a cabeça; mantenha-se sempre em movimento para queimar estes bytes e calorias”.

Nisso, criptografo minhas ideias ao som do berimbau dedilhado milimetricamente por Naná; Jackson dá um acompanhamento maneiro.

Disso, Franklin Cascaes junta os ossos do sambaqui ao couro do que sobrou da bernunça e dá vida a um Frankenstein – Franklenstein de Cascaes, que vai e volta, como uma criancinha animada com um algodão-doce, pelos túneis secretos da Cathedral Metropolitana e com seu passo badala o sino de todas as igrejicas ao redor da ilha, do Ribeirão ao Santinho.

É isso ai, me diziam Deus e o Diabo – não sei se era imaginação do forte sol ou alucinação de Belchior.

#foratemer, Saravá!

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